Painel do XXIII Seminário Internacional da FACPCS, realizado em 14 de outubro de 2026, em São Paulo, reuniu representantes do CFC, do IGET e da Itaúsa para tratar dos aspectos contábeis da Reforma Tributária nas demonstrações financeiras.

O tratamento contábil do IBS e da CBS passou a ocupar espaço próprio na agenda técnica do setor, à medida que a transição avança e as empresas precisam definir políticas contábeis para operações cujo arcabouço normativo ainda está em construção. Esse foi o objeto do painel “Aspectos Contábeis da Reforma Tributária nas Demonstrações Financeiras”, realizado na manhã de 14 de outubro de 2026, durante o XXIII Seminário Internacional da Fundação de Apoio aos Comitês de Pronunciamentos Contábeis e de Sustentabilidade (FACPCS), em São Paulo.
O painel contou com a participação de Márcio Schuch, vice-presidente de Inovação e Tecnologia do CFC e coordenador do Comitê de Assuntos Tributários e Fiscais da entidade; de Heron Charneski, contador, advogado e representante do Instituto de Gestão Empresarial de Tributos (IGET); e de Tatiana Migiyama, consultora tributária da Itaúsa, com moderação conduzida por Carlos Eduardo Zanotta, sócio da Deloitte.
O evento, em sua 23ª edição, foi realizado nos dias 14 e 15 de outubro, em formato híbrido, com atividades presenciais na sede do Conselho Regional de Contabilidade do Estado de São Paulo, na capital paulista, e transmissão on-line. A programação incluiu, pela primeira vez, seis masterclasses, além de uma reunião aberta conjunta do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) e do Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS), e contou com a presença de integrantes do International Accounting Standards Board (IASB) e do International Sustainability Standards Board (ISSB). A participação foi válida para pontuação no Programa de Educação Profissional Continuada, conforme as regras aplicáveis.
Segundo o registro do CFC, Schuch abordou os desafios relacionados ao reconhecimento, à mensuração e à evidenciação dos efeitos da reforma. Entre os pontos discutidos, destacaram-se a apropriação de créditos tributários, as modalidades de extinção dos débitos e a necessidade de distinguir os critérios fiscais da essência da informação contábil.
Na avaliação do vice-presidente, a aplicação das normas deve preservar a responsabilidade do profissional da contabilidade na avaliação de cada situação: “A essência da informação contábil é o julgamento, é a responsabilidade do profissional avaliar e definir claramente para aquele ambiente, para aquele setor, para aquela companhia, qual é a política contábil a ser adotada”, afirmou.
O palestrante ressaltou, ainda, que o registro contábil, por si só, não garante a representação fidedigna dos fenômenos econômicos, razão pela qual as políticas contábeis precisam considerar a natureza das operações e a adequada apresentação das informações nas demonstrações financeiras.
Conforme a notícia do CFC, Schuch chamou a atenção para a importância da escrituração contábil no acompanhamento das operações e na identificação dos fatos geradores do IBS e da CBS. Segundo a exposição registrada no painel, a mudança do fato gerador para o fornecimento com contraprestação amplia a necessidade de rastreabilidade das operações e reforça o papel da contabilidade como fonte de informações para a administração tributária.
Do ponto de vista operacional, o ponto destacado no debate é que a qualidade da escrituração passa a ter efeito direto sobre a capacidade de a empresa comprovar suas operações e sustentar as informações prestadas ao fisco.
A consultora tributária da Itaúsa, Tatiana Migiyama, apresentou questões práticas da implementação, entre elas a operacionalização dos créditos tributários. Segundo o registro do painel, o processo envolve diferentes etapas, desde o direito ao crédito até sua apropriação e utilização na compensação de débitos.
Destacou também a necessidade de conciliar as informações das declarações assistidas de IBS e CBS, diante da possibilidade de divergências entre os sistemas. A apropriação de créditos e as modalidades de extinção de débitos já haviam sido apontadas por Schuch como parte dos desafios de reconhecimento e mensuração.
Heron Charneski levou ao debate os possíveis efeitos indiretos da reforma sobre a apuração do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. Embora a mudança tenha como foco a tributação do consumo, o especialista apontou questões que podem gerar discussões fiscais, sobretudo em relação à receita bruta, aos custos e ao reconhecimento de créditos durante o período de transição.
Segundo o registro do CFC, o contador explicou que, apesar de o IBS e a CBS não serem reconhecidos como receita ou despesa na contabilização apresentada no debate, podem surgir situações com reflexos tributários. Entre elas estão as dúvidas sobre a inclusão dos novos tributos na receita bruta para determinados enquadramentos fiscais, os efeitos dos créditos não confirmados e o tratamento dos créditos presumidos.
Charneski destacou ainda que a forma de contabilização dos tributos recuperáveis pode alterar o custo de estoques e de ativos imobilizados, com possíveis consequências para a depreciação e a tributação futura. Na avaliação do palestrante, essas situações merecem atenção para evitar insegurança jurídica: “Embora o IBS e a CBS pela forma de contabilização não devam ser receita e despesa, eles podem produzir eventuais reflexos que, a meu ver, não seriam neutralizáveis pelas exposições que a gente tem hoje dentro do Imposto de Renda”, afirmou. Ele defendeu que seja avaliada uma alteração na legislação do Imposto de Renda para ampliar a segurança jurídica diante desses efeitos.
A programação do seminário incluiu discussões sobre as Normas Internacionais de Contabilidade, os aspectos contábeis relacionados à Reforma Tributária, a divulgação de informações financeiras sobre sustentabilidade e os impactos das mudanças regulatórias, além de temas como o mercado de carbono e as novas exigências de transparência.
A presença de integrantes do IASB e do ISSB foi registrada como oportunidade de intercâmbio de conhecimentos e de aproximação dos profissionais brasileiros dos debates que orientam a evolução das normas em âmbito global. O seminário também buscou promover a troca de experiências entre profissionais da contabilidade, auditores, reguladores, representantes de empresas e especialistas em sustentabilidade, em um cenário em que a qualidade e a confiabilidade das informações assumem papel estratégico para a decisão e para os negócios. O presidente do CFC, Joaquim de Alencar Bezerra Filho, estava entre as lideranças previstas na programação.
Tatiana Migiyama observou que ainda há definições regulatórias pendentes, como atos conjuntos para regulamentar dispositivos do IBS e da CBS, além de normas relacionadas ao Imposto Seletivo e ao Imposto sobre Produtos Industrializados. Nesse cenário, destacou a preocupação das empresas com a preparação para 2027, quando começa uma nova etapa da transição: “Então, tem muita coisa que ainda precisa sair e a gente já está em outubro. Por isso que também as empresas estão preocupadas com o ano de 2027”, afirmou.
A palestrante chamou a atenção para os riscos de eventuais dificuldades na emissão de documentos fiscais, que poderiam afetar o faturamento e o fluxo de caixa das empresas. Também foram abordados os efeitos sobre preços e margens e a necessidade de ajustes nos controles contábeis.
Do painel e da programação do XXIII Seminário Internacional da FACPCS emergem cinco pontos de atenção já apresentados: a definição de políticas contábeis com base no julgamento profissional, considerando ambiente, setor e companhia; o reconhecimento, a mensuração e a evidenciação dos efeitos da reforma, com distinção entre critérios fiscais e essência da informação contábil; o reforço da escrituração contábil como base de rastreabilidade das operações; a estruturação do ciclo de créditos — direito, apropriação e utilização na compensação — com conciliação das declarações assistidas de IBS e CBS; e a avaliação dos reflexos indiretos sobre receita bruta, custos, estoques, ativos imobilizados e depreciação para fins de IRPJ e CSLL.
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